Vendi minha fé
Estava ocupado demais para crer.
Tantos compromissos, congressos,
convites e ingressos.
Tantos retiros, palestras
e eventos para promover.
Muitos mitos, ritos,
e livros para ler.
Não tinha tempo para crer.
Precisava me unificar com o cosmo,
meditar, acender vela.
Gostava de cantar hinos
com a banda ou à capela.
Precisava me confessar,
e também ouvir o sermão.
Não tinha tempo para ser amigo
somente para ser irmão.
Precisava fechar as brechas do sistema,
decorar as leis e a liturgia.
Não podia faltar a célula,
a seção,a reunião e a terapia.
Estava engajado na fraternidade,
no pensamento positivo,
e no círculo de oração.
Lembrava do social e esquecia da ação.
Tinha que dar o dízimo
e fazer obra de caridade
Buscava o poder, o mover,
o zen e a castidade
Me ocupava com o jejum,
o “a-hum”, e a novena.
Me entregava às regras,
á penitencia e a quarentena.
Tantos métodos, mantras,
técnicas e praticismo.
Não tinha tempo para fé,
Somente para o emocionalismo.
Estava muito empenhado
em decifrar o estatuto,
a matéria, o dogma e
o transcendental.
Não tinha tempo para ser humano,
só para ser sobrenatural.
Minha bagagem estava repleta
de ídolos, amuletos e superstição.
Tinha que lançar cd´s, publicar livros,
e ser o primeiro na premiação.
Precisava subir as escadas de joelhos,
me auto flagelar
e andar quilômetros a pé.
Não tinha lugar para a fé.
Estava ocupado arrebatando multidões,
sendo extravagante e radical.
Não tinha tempo para dar assistência,
somente para ser social.
Precisava entender o antigo e o novo,
o sagrado e o profano.
Descobrir meu potencial interior.
Não tinha tempo para fé,
Somente para a ‘paz e amor’.
Estava ocupado demais para crer.
Vendi minha fé por religiosidade,
e agora tenho mais tempo
para ficar me olhando
na frente do espelho
e agregar valor àquilo que é futilidade!
=]






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